Espaço Jovem





CONSTRUIR PONTES E NÃO CERCAS
Ir. Chiara Dusi


Numa época em que a informação e o mercado não conhecem fronteiras, e as distâncias se encurtam a tal ponto que a “aldeia global” se tornou realidade, soa muito contraditória a decisão de alguns países europeus de construir cercas para deter o fluxo de migrantes em busca de refúgio humanitário. Enquanto informações e mercadorias podem e devem circular livremente, e o mais rápido possível, a circulação de pessoas parece gerar medo e ameaçar a segurança coletiva.
A história se repete: a tecnologia avança, mas no coração do ser humano continua presente aquele istinto egoístico de preservação da própria vida, garantindo o próprio sustento sem se preocupar pelo outro. 
Nas relações internacionais, assim como nos relacionamentos pessoais, é mais fácil, prático e barato construir cercas e não pontes: tomar distâncias do outro, não se envolver nas situações, não procurar soluções. 

Jesus foi, e continua sendo, construtor de pontes por excelência, entre o céu e a terra, entre os seres humanos. Um verdadeiro pontífice, capaz de unificar, aproximar, reconciliar, sem medir esforços, sem poupar forças. Podemos olhar para a Cruz como a derradeira e suprema ponte, que  sela definitivamente a aliança entre o ser humano e Deus.


Daniel Comboni, que desenvolveu de forma extraordinária a espiritualidade da cruz, nos entrega uma imagem bonita do Crucificado, que “ com uma mão estendida para o Oriente e outra para o Ocidente, recolheu os seus eleitos de todo mundo no seio da Igreja”. Parece de vê-lo, Jesus, “se esticando” para conseguir alcançar uns e outros, numa ginástica de amor para toda a humanidade. 

Peçamos a graça de olhar um pouco mais para Jesus, e contemplando a vida d'Ele aprender nós também a construir pontes e não muros,entre indivíduos, povos e nações, globalizando assim a “ginástica da solidariedade”. O Espírito que move as consciências e dirige a história nos ilumine e ajude a traçar novos e audaciosos caminhos. 


Lápis e caneta
ir Chiara Dusi
Colocando ordem entre velhas anotações, deparei com várias folhinhas soltas, escritas com lápis. Como é óbvio, o risco tinha se tornado bem fininho, sendo assim muito difícil, para mim, a leitura daqueles textos, mesmo que, nos tempos idos, tivesse sido eu mesma a redigi-los. Em alguns casos, tive que jogar fora, constrangida, os meus papeizinhos, sem conseguir entender direito o que aí estava escrito.

Ao contrário, fiquei meio incômoda ao olhar para minha agenda, com todas aquelas anotações em caneta que, por causa de mudanças inesperadas no meu planejamento, tiveram que ser riscadas e substituídas por outras, criando assim uma “paisagem” meio desordenada e confusa.

Como nos ensina a sabedoria do livro do Qoelet, “para tudo há um tempo, para cada coisa a um momento debaixo do céu...tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado...tempo para gemer e tempo para dançar” com certeza tem um tempo, também, para escrever de lápis, e para escrever de caneta, nas folhas da Vida...
Só que às vezes, por imprudência, ou por inexperiência, pode nos acontecer de não discernir de forma adequada, assim colocando indecisão onde a vida nos pede firmeza, ou, ao contrário, rigidez onde seria preferível flexibilidade.

Mesmo que não gostamos muito admiti-lo, é errando –também-  que a gente aprende o jeito certo de se relacionar consigo mesmo
, com os outros, com Deus.  Eu talvez não saiba escolher da forma mais certa o uso de lápis e caneta, na minha vida. Mas Deus sabe, sim. Os nossos nomes, as nossas vidas, estão marcados nas palmas das suas mãos, e em seu coração. E os nossos pecados, Ele joga para trás e esquece.
Ensina, Senhor, aos teus aprendizes escritores, o que calar, o que cancelar, o que escrever, como escrevê-lo. E então, junto a Ti, traçaremos nas estradas do mundo, riscos de paz, amor, verdade e justiça.

Filho de Deus, Filho do Homem
Ir. Chiara Dusi
R. ( um jovem que neste artigo será chamado simplesmente R. para não ser identificado) apareceu na nossa casa, outro dia. Fazia meses que já não encontrávamos com ele. Sabíamos que tinha ido para o centro terapêutico de desintoxicação do álcool e das drogas, na nossa diocese de Humaitá. Sabíamos também que ele tinha ficado só três meses, e que não tinha conseguido levar para frente o processo de recuperação.
De toda maneira, dava para ver que tinha ganhado um pouco de peso, além de estar  vestido com dignidade e aparentar uma lucidez de pensamento muito maior com respeito à última vez que o tínhamos visto.
R. queria de nós uma ajuda para comprar passagem, alcançando um município próximo à nossa vila. Ele mesmo nos pediu de não entregar o dinheiro na mão, mas de ir à rodoviária esperando por ele e aí mesmo comprar. “Talvez poderia desperdiçar aquele dinheiro em coisas que não prestam”, disse ele, “melhor não se arriscar”.
Ficamos de acordo de nos encontrar, no dia seguinte, às 9.00 da manhã, na rodoviária.
Ele, de fato, estava aí, esperando... e o ônibus, quase pronto para sair. Compramos a passagem, ele agradeceu e acrescentou: “a próxima vez que nos encontrarmos, serei um filho de Deus.” Meio confundida com aquela afirmação, tentei dizer para ele que já era filho amado de Deus, mas no fundo do coração sabia o que este homem queria dizer.
Deixou-me, dentro, uma paz inquieta. Os dois rostos de Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, se me apresentaram de forma desconcertante na humanidade de R., ferida mas ao mesmo tempo sedenta de libertação e plenitude.




A arte de pintar
Ir. Chiara Dusi
 
Faz muito, muitíssimo tempo que não pinto. Quase que não sei mais como segurar o pincel na mão. E também, na verdade, nunca fui muito prendada nisso. Porém, uma destas últimas noites, dediquei  um pouco de tempo para pagar a promessa feita para as mulheres do curso de pintura, criando algumas cores secundárias no intento de poupar um pouco de dinheiro e aproveitar do material que já tínhamos.  Tentei, então, refrescar a memória do meu ensino fundamental:  azul+ amarelo= verde Vermelho +amarelo= laranja Azul + vermelho= roxo....E assim por diante.
Não foi difícil lembrar a receita, porém tive alguns problemas em executar a tarefa...
Gastei um monte de tinta amarela para conseguir transformar o azul em verde; do mesmo jeito, demorei muito tempo em conseguir a cor laranja e roxa...se tivesse feito o contrário, começando das cores mais claras, teria bastado acrescentar uma pontinha da outra cor, para obter o resultado esperado.
Estou convencida de que Deus serve-se também destes acontecimentos do dia a dia para nos falar.  Na nossa sociedade, a voz dos poderosos prevalece sobre os mais pobres e fracos. É preciso muito esforço para que os mais humildes sejam ouvidos, e o olhar do mundo se volte para o pobre. Os mais simples tendem a sumir, como a minha tinta amarela misturada com qualquer outra tinta mais escura.
O sonho de Deus cantado por Maria no Magnificat (Lc 1, 39-56) é outro: “Derrubar os poderosos de seus tronos, levantar os humildes, despedir os ricos de mãos vazias, encher de bens os famintos.” Isso não acontece de forma mágica, ma somente se for deixado espaço para as bases se expressarem e se fortalecerem, devolvendo a palavra para elas, seja no âmbito da sociedade civil, seja nas nossas realidades eclesiais.
Surge espontâneo suplicar ao Senhor da Vida que os mais simples não sumam do mapa por causa da arrogância dos grandes, e é nosso direito e dever rezar pelos nossos irmãos, sobretudo por aqueles que passam por dificuldade.         
Mas como em um diálogo franco entre amigos,  o Senhor, ao mesmo tempo em que nos escuta, pede, a cada um, um compromisso concreto, para oferecer às pessoas mais simples, nos mais diversos âmbitos sociais e eclesiais, os primeiros e melhores lugares.







O SOM DO CORAÇÃO
Ir. Chiara Dusi

   Você já reparou que em cada um de nós toca uma “música” diferente?
 Deus nos fez únicos e originais, inscrevendo, gravando no mais profundo da nossa alma, um estilo de ser singular, inédito, que nunca ninguém escutou nem tocou.
Não se trata, então, de inventar uma música para a nossa vida, mas de saber escutar  em profundidade quais cordas, dentro de nós, vibram com mais intensidade e entusiasmo.
Isso é vocação. Ninguém escolhe sua própria vocação,  ela é presente de Deus, colocada como semente na nossa vida. Só precisa de duas coisas: ser acolhida e não rejeitada, e ser cuidada a fim de que possa crescer.
A vocação não é posse privada, assim como a música não é propriedade do musicista. Sou chamado, chamada a aprender tocar a música que se encontra escondida no meu coração. A cantar, a bailar esta mesma música. E cantando, bailando, envolverei outros e outras...a música, de fato,  é contagiosa...e assim a vocação desembocará quase que naturalmente na missão...
Fica uma tarefa para a vida inteira: continuar a ficar atenta, escutando como que em perene vigília, o meu coração. Deste modo saberemos também nos colocar à escuta de outros corações e ajudar estes companheiros de caminhada a ser fiéis a música deles.
Eu estou muito agradecida a Deus pelo som da missão que Ele inscreveu no meu coração.
E você, já descobriu qual é o som do seu coração?







A SABEDORIA E OS SEGREDOS DO TECER
                                                                                                                                        Ir. Chiara Dusi


Recorre-se com frequência ao símbolo do tecer nestes últimos anos, para falar da presença dos consagrados no mundo de hoje: “Tecendo relações, construindo caminhos” foi o lema do congresso nacional da vida religiosa jovem, organizado em Aparecida, em fevereiro de 2013, pela CRB (Conferencia dos Religiosos do Brasil). Também nós, como irmãs missionárias combonianas,  em 2010, no nosso capítulo geral, falamos da importância de “tecer um estilo de vida profético no mundo de hoje”. Com certeza, é um trabalho que requer muita paciência. Trata-se de repetir, minuto após minuto, hora após hora, dia após dia, os mesmos gestos. Um ponto atrás do outro, e aos poucos o desenho vai aparecendo e tomando forma. 

O ato de entrelaçar os fios da urdidura com os da trama, de forma manual e não mecanizada, suscita na gente certo fascínio. Olhamos com prazer para tapetes multicolores, admirando como através de gestos simples e repetitivos foi possível criar uma peça original e única.

Somos tecedores imperfeitos, e o resultado que alcançamos nem sempre é aquilo que esperamos.  Mas não seja isso que nos faz desistir do continuar na aventura evangelizadora. Lembra o nosso querido papa Francisco, na exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.” (EG 49)

Acontecendo algum erro, é preciso parar, desfazer e logo após seguir em frente, para não prejudicar o resultado final. Assim na nossa vida. As nossas relações comunitárias, as relações com o povo ao qual somos enviadas, não acontecem da noite para o dia. Precisam de tempo, paciência, de gestos que se repetem com frequência, até chegar a estabelecer uma confiança mútua, que leva a abrir o coração com sinceridade e caminhar juntos rumo a Deus.

Deus, o maior tecelão, através da Graça que sustenta o mundo, nos conceda aprender a sabedoria e os segredos do tecer relações, ficando longe dos enredos e das tramas das teias de aranha, promovendo assim relações verdadeiramente livres e libertadoras, segundo o estilo de Jesus de Nazaré.
 

 




DEUS, OS PEQUENOS E O MILAGRE DA VIDA
 Ir Chiara Dusi
Através dos últimos acontecimentos vivenciados neste recanto amazônico (Santo Antonio de Matupi, diocese de Humaitá, AM) torna-se sempre mais claro para mim que a missão é, essencialmente e antes de tudo, descobrir Deus atuando escondido no meio do povo simples e sofredor.

Nenhum papel de heroínas cabe a nós missionárias, a não ser a tarefa de ser testemunhas que Deus caminha  fielmente com o seu povo, semeando com paciência, generosidade e esperança (Mt  13, 1-23) Sinto crescer, no meu coração de jovem missionária, algumas certezas, à medida em que vai perdendo força aquela  tendência aos cálculos racionais, que nos levam longe da experiência da ternura e amor de Deus.
A primeira certeza é que Deus cuida dos pequenos.
Como interpretar de forma diferente a viagem de S., jovem mãe ao sexto mês de gestação, enfrentando 400 km de transamazônica, com a bolsa de liquido amniótico já estourada, para tentar um parto em segurança  e poder encontrar uma incubadora para acolher a nenê? A. nasceu, está bem e dia após dia vai se fortalecendo e aguardando o abençoado dia em que, alcançados os 2500 gramas, poderá voltar para casa!
A segunda é que os pequenos têm uma viva memória de Deus. Amigos e familiares de S. me mostraram saber esperar contra toda esperança, sendo portadores de uma fé em Deus tão grande quanto simples; uma fé concreta que reconhece a providência divina nos pequenos e grandes gestos de solidariedade, de pessoas conhecidas e desconhecidas, que se espalhou como benção superabundante sobre S. e A. Deus cuida dos pequenos porque eles reconhecem ser cuidados por Ele.
A terceira certeza é resultado das outras duas. A aliança entre Deus e os pequenos faz o milagre da vida acontecer, como um arco-íris depois da tempestade. Confiança, ternura, solidariedade, cuidado, são os ingredientes da receita que protege e cuida da Vida, onde Ela é ameaçada, ás vezes por motivos estruturais, tais como a falta de recursos ou uma inadequada redistribuição dos mesmos, outras vezes por corações fechados em mecanismos de violência  e desrespeito da dignidade humana.

No campo desta terra de missão, começo contemplar o trigo, teimoso e ousado, crescendo junto com o joio. (Mt 13, 24,430)















 JMJ EM SANTO ANTONIO DO MATUPI - AM
 Ir. Chiara Dusi



Enquanto milhões de jovens católicos do mundo inteiro estão chegando nestes dias, no Rio de Janeiro, para a tanto esperada JMJ, também os jovens da Paróquia Santa Luzia quiseram responder ao convite e ao envio de Jesus, tal como toca o hino da jornada “Cristo nos convida, venham, meus amigos...Cristo nos envia...sejam missionários!” então...convidados a se reunir, antes de tudo, entre jovens de 3 diferentes comunidades, Cristo Redentor, Maravilha, Santa Luzia, para um dia inteiro de convivência, formação, e missão!


O nosso encontro começou com a participação à santa missa na comunidade Santa Luzia e continuou com 4 oficinas cujos temas foram: relações humanas entre desejo de ternura e instinto de agressividade, leitura orante da palavra de Deus, testemunho de um casal católico engajado na comunidade cristã e responsabilidade pessoal para a transformação social.


Após um gostoso almoço e divertidas dinâmicas e brincadeiras nos preparamos para uma pequena missão na vila: construímos e pintamos pequenas cruzes e em grupinhos de duas ou tres pessoas visitamos as famílias deixando de presente a oração da JMJ e a cruz,  convidando para a oração da noite que encerrou o nosso encontro. 


Significativo foi o rito da luz com o qual começamos a nossa vigília e o evangelho escolhido- Lc 7, 1-11, a viúva de Naim. Os jovens acolheram o convite de Jesus a se levantar, ficar de pé, para fazer brilhar neles e difundir com generosidade ao seu redor a Vida plena que Ele oferece a quantos procuram de coração sincero.

Agradecemos a Deus por nos ter dado esta oportunidade de formação, partilha e oração, e pedimos a Ele a força e a bênção para poder chegar àqueles jovens mais afastados, e fazer acontecer o milagre da partilha: compartilhar com outros a alegria de ser jovens discípulos missionários para poder multiplicar quanto mais aquela mesma alegria!







 

Ir. Geny Maria da Silva

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